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19.11.08
16.11.08
Resíduo arbóreo é concreto em Porto Alegre

A capital gaúcha mapeada por situações insólitas – no lugar de roteiros turísticos, um passeio por encontros entre natureza e mobiliário urbano. Registros fotográficos de pequenas epifanias, captadas e oferecidas pela artista.
No próximo dia 17/11, será o lançamento do livro de artista Resíduo arbóreo é concreto em Porto Alegre e a abertura da exposição da artista plástica Viviane Gueller no café Muffuletta. Depois de desenvolver essa pesquisa durante 3 anos, é a primeira vez que Viviane apresenta em Porto Alegre essa seqüência de situações que abordam o encontro insólito entre elementos da vegetação e construções humanas na paisagem urbana. Visto como um organismo que amalgama natureza e cultura - palimpsesto de vegetação, concreto, sinalização viária e arquitetura, esses registros fotográficos são associados a um procedimento que ela denomina arte-reportagem.
Sua proposta envolve a curiosidade pelas pequenas coisas, o estar disponível para tomar qualquer direção. Esse exercício torna visíveis aspectos do cotidiano da cidade que usualmente não são revelados para o olhar funcional e apressado. O inesperado, a urbe antropológica e não-industrial, a paisagem enquanto relação entre o homem e a natureza, a cidade-ambiente. Cenas em estado de suspensão.
Encontros com a artista
Após o lançamento do livro, Viviane irá falar sobre seu trabalho na Palavraria (26/11, às 18h) e no Atelier Livre (3/12, às 17h30). O objetivo é estabelecer a comunicação e o compartilhamento do projeto. O livro de artista estará à venda por R$ 15. Na noite de lançamento, terá um preço promocional de R$10 no Muffuletta.
4.9.08
"A saracura é uma dançarina que não atrapalha o passo"
Frase do grande maestro, compositor e arranjador brasileiro. Quando visitei o Jardim Botânico do Rio em março, logo imaginei a relação de Tom Jobim com aquele santuário, de onde só consegui sair (exausta) depois de três horas de deriva. Esse jardim encantado, que comemora dois séculos de existência, era onde Tom Jobim, apaixonado pela paisagem, brincava com os animais e fazia música com os pássaros. Grande defensor da natureza, foi considerado um dos maiores propagadores do Jardim Botânico. Quando morreu foi velado ali, um de seus lugares preferidos na cidade. Nada mais justo para quem amava tanto a natureza e se transformou em um de seus grandes defensores. Fica aqui uma homenagem ao maestro soberano; aos pássaros, aos rios e às florestas que nos encantam.
22.7.08
Salve Jorge
Leveza, uma das propostas de Ítalo Calvino para esse milênio. No livro, o genial escritor italiano aprofunda suas escolhas, contrapondo-as com seus opostos, lembrando que uma não poderia existir sem a outra. À delicadeza, ele discorre sobre o peso, a densidade das coisas. Foi com essa idéia que saí do show de Jorge Drexler. Sabia que poderia ser interessante. Mas sinceramente não imaginava que provocaria algo tão delicado, que sensibilizasse a ponto de mobilizar (in)certezas. O improviso, o diálogo com a platéia, os músicos/ operadores de som que o acompanham - tudo contribui para uma atmosfera particular que ele vai criando, sutil e lentamente. A resposta do público a sua presença – acompanhando-o nas letras, com a mesma voz suave e afinada, quase que num sussurro musical coletivo - foi sem dúvida a mais comovente que já participei. Algumas combinações de palavras e melodias ficaram gravadas na minha memória, a um tempo simples e sofisticadas. "Estás conmigo / estamos cantando a la sombra de nuestra parra / una canción que dice que uno sólo conserva lo que no se amarra / y sin tenerte, te tengo a vos y tengo a mi guitarra". A experiência recente teria me feito mais sensível ao espanhol ou seria mesmo seu toque de Midas? "Tengo tu sonrisa/ en un rincón/ de mi salvapantallas". Depois do show, con un vaso de vino, lembrei de outra expressão que particularmente gosto em todas línguas que conheço, aquela relacionada ao olhar: "mirar de costado". Mas esse é apenas alguns dos aspectos da experiência em que nos faz embarcar Jorge Drexler. Junto com seus dois músicos, conhecemos sons gravados de campainhas de bicicleta, de comissárias de bordo e geringonças eletrônicas em que se evidencia o humor melancólico tão característico do sul. "Hay-manos-capaces-de-fabricar-herramientas-con-las-que-se-hacen-máquinas-para-hacer-máquinas-para-hacer-ordenadores-que-su-vez-diseñan-a-máquinas-que-hacen-herramientas-para-que-las-use-la-mano". El pianista del gueto de Varsóvia "Fechas, tan sólo fechas/ Yo estoy aquí, tu estabas allá" e Milonga del moro judío "vale más cualquier quimera/ que un trozo de tela triste", duas canções que partem da experiência judaica, mas expandem as fronteiras tão defendidas na Terra Santa. Drexler traz ainda uma versão milongueira de Dance me to the end of love, e nos transporta para um lugar onde Leonard Cohen encontraria Alfredo Zitarrosa. Algumas palavras seguem ecoando em mim: fechas, costado, salvapantalla, golondrina. Pouco importa aqui o significado que elas têm. Funcionam mais como um enunciado, uma vibração, uma condição anterior em que elas existiram enquanto signo. Jorge é, evidentemente, sensível à impermanência. E assim como inicia o show, encerra com mais uma de suas econômicas observações sobre as pequenas-grandes-coisas de que é feita a matéria da vida:"Cada uno da lo que recibe
y luego recibe lo que da,
nada es más simple,
no hay otra norma:
nada se pierde,
todo se transforma".
foto retirada do site G1, 03/09/2007
18.6.08
menorá do mato

Dois meses sem sair de Porto Alegre. O suficiente para entrar em surto de rotina. Na serra faz muuuito frio, a paisagem remete a um clima temperado, belas folhas vermelhas de plátano que despontam entre as majestosas araucárias. Caminhando na Floresta Nacional do Ibama, tenho a impressão de um santuário judaico: menorás (ou chanukiás), candelabros orgânicos, um viés panteísta na cultura hebraica. Algumas copas formam dosséis irregulares, diversos desenhos no espaço - quero apreendê-las, fico me contorcendo para acompanhar o ângulo em que se exibem, a maneira como emergem desde a raiz até os galhos retorcidos, que ora apontam em nossa direção, ora para o céu, fazendo volteios em busca de claridade, clarividência arbórea. Num trecho da trilha, a copa e o tronco desses belos pinheiros-brasileiros* se enfileram formando uma parede espessa: a inclinação do sol de inverno não permite que a luz passe por ali. Somos surpreendidos por cristais de gelo que se esparramam em pedras, galhos, troncos. Desencaixamos com cuidado para apreciar mais de perto (distraídos não levamos suprimentos, mas agora já podemos matar a sede com vapor d´água congelado). Do festival de bonecos, assistimos a apresentação de um títere húngaro. Seus personagens voam - desde um casal de peixes e uma sereia até bailarina, bandeonista e palhaço, todos têm movimentos leves, suaves, prescindem da gravidade. Na contramão da profusão frenética de imagens que assistimos diariamente, o boneco que se faz mover por meio de córdeis lembra que podemos atribuir outro ritmo às coisas.
*A floresta ombrófila mista ou floresta de araucária é um dos mais exuberantes ecossistemas do Brasil. Ela abriga uma das poucas coníferas de ocorrência subtropical no hemisfério Sul do continente americano: a araucária brasileira, conhecida como pinheiro-brasileiro ou pinheiro-do-Paraná (Araucaria angustifolia Bert. O. Ktze.). Por sua beleza e singularidade, a araucária tem atraído a atenção de muitos estudiosos.
*A floresta ombrófila mista ou floresta de araucária é um dos mais exuberantes ecossistemas do Brasil. Ela abriga uma das poucas coníferas de ocorrência subtropical no hemisfério Sul do continente americano: a araucária brasileira, conhecida como pinheiro-brasileiro ou pinheiro-do-Paraná (Araucaria angustifolia Bert. O. Ktze.). Por sua beleza e singularidade, a araucária tem atraído a atenção de muitos estudiosos.
2.6.08
lunch time

Proposta de texto in progress
sobre a amizade
e a possibilidade de um oásis em tempos de Cê-Pê-AN do Detri
sobre a amizade
e a possibilidade de um oásis em tempos de Cê-Pê-AN do Detri
Costumo falar muito pouco do meu trabalho, minha ocupação supostamente jornalística atual. Convenhamos que, hoje em dia, ao dizer Detran, a associação à corrupção, 40 milhões, 40 ladrões (e os ali babás da vida) é imediata. Como nada disso faz parte da realidade da labuta, mas reflete diretamente no clima geral e na de falta de estímulo diário, é preciso sublimar. Eis que comigo trabalha a amiga desde los borrachos de adolescência, Marcia Boeira http://www.fotolog.com/mboeira, sobrinha do tão estimado Nelson Boeira, - que liderava as reuniões do Terravista, nos estimulando a criar uma conexão cultura a partir dos pampas (quase dez anos depois, inaugura a Fundação Iberê Camargo, será que finalmente Porto Alegre se volta para o mundo? Bem, mas esta já é outra história). Geralmente saímos da Voluntários, num daqueles trechos em que meninos de rua convivem com papeleiros e puteiros, atravessamos a Farrapos, olhamos as vitrines de espartilhos vermelhos e lingeries oncinha com a promessa de que na próxima teremos uns minutos para a diversão. Nosso horário de almoço é de uma hora e logo temos de retornar. Uma hora? Definitivamente o tempo cronológico já não diz muita coisa. Nos servimos no buffet executivo e falamos de agruras, sacanagens, tédio, idiossincrasias. A Marcia, compulsivamente criativa do jeito que é, tem blog para frases, para cartas e vai sempre sublinhando aprendizado das conversas. Às vezes, acabamos nos restringindo às questões do trabalho. Mas geralmente ignoramos essa demanda e voamos. Para um mundo etéreo, onde aquarianos e librianos podem enfim exercer sua melhor forma (e conteúdo). Sem pudor de visitar desde os mais vis pensamentos até os macaquinhos no sotão. Numa dessas derivas, passando em frente da guarita+árvore+placa+cobertor de mendigo, a imagem imediatamente me solicita um aparelho. A Marcia tem um celular com câmera. Enquanto ali na padaria da esquina ela vai em busca de isqueiro, eu clic.
18.5.08
17.5.08
29.4.08
dengo













Cidade de cidades misturadas, o Rio possui uma topografia privilegiada. Tantos mirantes (dona Marta, Cristo, Pão de Açucar, Forte de Copacabana) e se tem a impressão que sempre há mais uma possibilidade de re(ver) tamanha beleza. Isso sem falar das paisagens que se descortinam da janela do frescão em Copacabana, do fim de tarde em Ipanema, de caminhadas pelo Jardim Botânico. Entre as aléias, descubro coleções de cipós, palmeiras, abricó de macaco, cavalinha, sumaúma...No coração do centro histórico, o Saara, que de deserto nada tem. Judeus e árabes fazem das ruelas um mercado comum. Algumas quadras dali, um oásis: galerias de arte bacanas como a Gentil Carioca, Durex e o Largo das Artes. Entre uma e outra, rápida parada - um espanto perante o monumental Real Gabinete Português. O edifício, em pedra de lioz, pé direito enorme, estantes com livros do teto ao chão, tomos coloridos, tudo nimbado por uma luz dourada. Em direção ao porto, Pedra do Sal. Black is beautiful. A Casa da Engorda está abandonada, nenhum registro - as marcas negras que a História do Brasil insiste em apagar. Mas se vc não está interessado em nada disso, e o Rio de Janeiro é mesmo praia, malandragem e curtição, algumas dicas: banho de mar é no arpoador, qualquer outro ponto da zona sul é suicídio e/ou quilos de areia nas partes íntimas. À noite, o negócio é molhar a palavra na Lapa. Se vc estiver com os 4 pneus arriados, pode tomar um sucão de espinafre, mel e laranja no Natural. Em Santa Teresa, o bloco Vassila Quem Pode é uma aula de espontaneidade. Vacilar é dom, garantem com a experiência de connaisseur do pavilhão funicular.
15.4.08
sobre tangos e candombes
Contardo Callagaris define em um belíssimo artigo seu, a partir da leitura de Saramago em O Conto da Ilha Desconhecida, que viajar é deslocar-se para um lugar onde possamos descobrir que há em nós algo que não conhecíamos até então. Amor e viagem teriam isso em comum: o outro amado, tanto quanto a chegada numa terra incógnita, nos revela algo inesperado em nós. O cenário seria perfeito: dias ensolarados, crepúsculo púrpura, noites de via láctea branca branca branca, tão lindas como há anos somente vi no pampa gaúcho. Fatores nem sempre fazem humores, para quem está alijado da sensibilidade, para quem não sabe que os outros não são nenhum inferno, são uma viagem. Entretanto - outra vez Calligaris - para amar, como para viajar, é preciso determinação e coragem. Em caso de despressurização da cabine, máscaras de oxigênio não caíram automaticamente sobre a cabeça. Dormir receio, acordar dúvidas, lidar com o estranho, que não sabe dialogar, não quer se perceber nem a nada que não faça parte de seu universo conhecido, seguro. Hay siempre un faro por ahí. Sou jogada ao abismo. Busco o entendimento. Recebo diplomacia. Pouco amor não é amor. Vino rosso, cortina de fumaça - inspiração, enfim transpiro. Barbara e Robert, era de aquário reforçando quem sou. E mais Kevin e Lara, elfos del sur. Sou criança e tenho uma filha. Caminho, observo e fotografo. Atravesso fronteiras, vejo o sol se pondo em movimento; movimento meu, do sol, da terra, da água. Terra em transe. Fim da tarde a terra cora e a gente chora porque fin-da tarde. Então o tango, um longo abraço, um misturar-se, um entrelaçar-se de corpos infinitamente. Quadril, mãos, pernas. El tango es perverso. No, la vida es perversa. A estrada pela esfingie de Borges, Cortazar, Arregui, Benedetti, Casares, inebriada pela dramaticidade; melancolia. Assim me aproximo de outro, suave - retorno a Ciudad Vieja já em outra viagem. Espelho generoso, atento. O tempo transcorrido não é igual ao tempo subjetivo. Olho o Plata, e de tal arte que me esquece olhar olhando, e súbito isto me bate de encontro ao devaneando — O que é ser rio, e correr? O que é está-lo eu a ver? El viaje, el camino que se hace ao caminhar. Uma anedota.
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